Relato de experiência: Alice


Ola, fiquei bastante tempo sem escrever dessa vez…
Acontece que passei 20 dias em Niterói, tendo uma das mais intensas experiências enquanto doula. Aliás, um tanto diferente de uma doula convencional. Estava doulando uma amiga muito querida, parceira de tantos sonhos e planos, a Gabriela.
Cheguei em Niterói, no Rio de Janeiro em 20/12/2011. Passamos 15 dias de muita expectativa, arrumando roupinhas, passeando na praia, tirando fotos, fazendo barriga de gesso, costurando protetores de berço, muitas massagens nos pés, idas ao obstetra Dr.Rodrigo, a pediatra Dr. Joana, ultrassom (é, acompanhei tudo isso), aula de Yoga, fazendo plano de parto, imaginando como seria o parto em si.
E a Alice já logo foi me recebendo de braços abertos, mexia sempre que eu tocava a barriga, ora chutando com os pés, ora com o bumbum…
Assim, em meio a pés bem inchados, conversas com o Gabriel sobre video-game, vídeos engraçados na internet, poker, cerveja, vinho, balinhas de gelatina de minhoca, chegou e passou o Natal e a virada do ano.
Na madrugada do dia 04, mais precisamente às 3h30 da manhã sou acordada por Gabriel: “Carol, a bolsa da Gabi, estourou”. Mas nada das contrações.
Até tentamos dormir depois disso…mas nossas tentativas foram em vão… De manhã decidimos levantar e partir pro dia que nos esperava…
A expectativa dos familiares era grande e por mais que tentássemos (eu e Gabi) explicar que o médico tinha já dito que não precisávamos ir para o hospital assim que a bolsa rompesse, não adiantava. Então a Gabi acordou com o médico uns exames e lá fomos nós pro hospital. Como tudo estava bem, voltamos para casa.
Umas 22h fiz um chá de Canela pra Gabi e conversamos um pouco, tentando relaxar e nos preparando pra uma noite de sono.
Perto da meia noite do dia 05, as cólicas começaram. Alias, as cólicas acompanharam a Gabi o dia inteiro mas perto da meia noite elas ganharam um ritmo…10 em 10 minutos.
E por mais que tentássemos insistir em dormir agora, a cada 10 minutos acordávamos…
A Gabi decidiu ir pro chuveiro porque ajudava na pequena dor que estava sentindo e ajudava a relaxar também. E ela ficou lá um bom tempo, se conectando com o momento, vivenciando e sentindo os ultimos momentos da Alice dentro dela.
De manhã, ligamos para o médico mas ainda não era hora de ir pro hospital.
Tomamos café da manhã, conversamos e queríamos dar uma volta na praia mas as contrações foram se intensificando e as 11 horas da manhã a Gabi conversou com o obstetra e resolveram que era melhor ir ao hospital, dar uma olhada.
Por uma confusão, a Gabi acabou dando entrada para a internação, ao invés de ser examinada no PS. A dilatação ainda era muito pouca e não era hora ainda de internar, mas acabou sendo… e uma vez internada, não tinha mais como voltar para casa.
Acabamos ficando por lá Gabi, eu, Gabriel e D. Margareth (mãe da Gabi)…passamos (doula e doulanda) muitas horas no chuveiro (onde a Gabi se sentia melhor), com massagens e jatos quentes nas costas.
Mas ainda nada da tal dilatação…
Perto das 19 horas o obstetra assinalou que talvez fosse hora de uma intervenção. Apesar de ter optado pela prostaglandina, o hospital estava sem. Então o médico sugeriu a Ocitocina.
Como a Gabi não estava muito a fim da Ocitocina pedimos mais uma horinha para o médico. O horário de visita já tinha acabado, ficamos então só eu, a Gabi e o Gabriel. Apagamos as luzes, colocamos uma música suave e a Gabi ficou então curtindo as suas contrações, dançando ora sozinha, ora acompanhada.
Porém, o prazo da bolsa rota (dentro do hospital) estava se esgotando e logo o médico voltou para fazer o exame de toque: Nada ainda de dilatação…
Ocitocina na veia, em doses homeopáticas, graças ao obstetra atento que entrou logo após a enfermeira e diminuiu o gotejamento.
As contrações ficaram mais intensas, mais próximas, mais doloridas. Com isso, mais tempo no chuveiro, mais massagens, mudanças de posição por duas horas.
Quando o médico voltou ao exame de toque: ainda com a mesma dilatação.

Sendo assim, depois de 20 horas em trabalho de parto, partimos para a cesárea. Graças ao médico que me colocou como equipe, pude ficar o tempo todo ao lado da Gabi, ver a cabecinha da Alice saindo e ouvir do médico que ela não estava encaixada, não rodou e por isso não desceu.
Então, a 1h10 da manhã a Alice nasceu…foi logo colocada nos braços da mãe para mamar. Com todo o vérnix que conseguiu carregar com ela e depois absorver já que a pediatra optou por deixar tudo com ela, mantendo-a quentinha.
Também não ganhou nitrato de prata nos olhos, ficou com os olhos abertos para aproveitar a Gabi.
Não chorou, não tinha motivo…foram dois resmungos e um espirro. Assim, não precisou ser aspirada…
E ficou o tempo todo com a Gabi, só deixando o colo quando foi para o berçário para ser pesada e avaliada. Ainda assim, com a pediatra ao lado o tempo todo.
Nasceu com uma marquinha de sorvete na testa e um degrau na moleira…lembranças de um esforço, de um trabalho de parto. Aliás, a Gabi ficou bastante contente nesse ponto. Ambas puderam passar pelo trabalho de parto, vivenciar esse momento tão importante da gestação para a mãe e para o bebê que só têm a ganhar com tudo isso.
Não tomou fórmula apesar da Gabi ainda não ter colostro…mas graças a Alice que mamou a primeira noite inteira, ele desceu pela manhã.
A primeira roupa foi retirada por mim porque tinha um babadinho que atrapalhava para mamar mas foi colocada pela Gabi, que apesar de não poder levantar por causa da cirurgia recebeu uma ajudinha minha que coloquei a Alice bem pertinho das mãos dela e ela pode fazer tudo mesmo deitada.
Também facilitei a primeira troca de fralda, mas foi a Gabi que trocou… comigo não teve moleza… e até parece que nesse ponto ela queria.
Assim, mamando muito, logo a Alice fez xixi e cocô e depois de 24 horas as duas tiveram alta e já puderam voltar para casa.

Foi um parto com muita história para contar e eu fico muito feliz em ter podido acompanhar tanta coisa…
Então pude perceber a diferença que faz ter uma equipe de primeira, tão empenhada em atender aos desejos da gestante e da família…foi incrível!

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Dica de Filme

Ola,

Para o fim de semana deixo a dica de um filme:

Bebês (Babies)

 

 

O filme é de 2010 do diretor Thomas Balmès,escrito pelo diretor e ator francês Alain Chabat.

Em formato de documentário, acompanha dos preparativos para o nascimento até o primeiro ano de vida de 4 bebês de culturas diferentes (Namíbia, Japão, Estados Unidos e Mongólia).

Penso que o interessante do filme é fazer a gente refletir sobre o fato de que, apesar das fórmulas prontas e dos manuais que existem por aí, dizendo o jeito certo de se criar uma criança, esses 4 bebês, criados de maneiras tão diferentes, conseguem se desenvolver no final das contas.

Se descobrindo grávida…o que fazer?

E como eu acredito na informação, vamos partir do princípio…o que fazer quando você descobre que está grávida?

Independente do quanto essa gravidez foi desejada/planejada, você deve procurar uma(um) médica(o) obstetra e iniciar seu pré-natal…é importante para a sua saúde e a do bebê que você seja acompanhada por um profissional durante toda a gestação.

Provavelmente nessa primeira consulta ela(ele) irá fazer uma série de perguntas sobre o seu histórico de saúde e da sua família. Também irá pedir uma série de exames. Pergunte a ela(ele) logo na primeira consulta tudo o que quiser saber sobre as mudanças em seu corpo, sobre o desenvolvimento do bebê e para que serve cada exame. Assim você poderá conhecer todo o processo e fazer parte dele.

Aproveite para questionar também o que ela(ele) pensa sobre cesárea, parto natural ou qualquer que seja a sua opção. Tente perceber se você se sente segura e confiante com as respostas. Se não, mude de médica(o).

E se você está sendo atendida pelo SUS, você sabia que você tem direito a trocar de médica(o)? Pois é…

Também é de direito, pelo menos 6 consultas pré-natais durante a gestação, a presença de um acompanhante durante todas as consultas e o parto e conhecer antecipadamente o hospital onde será o parto.

Fonte: Ministério da Saúde (www.saude.gov.br/)

Imagem: Deméter – A Imperatriz – Carta do Tarô Mitológico

Dica de Filme

Com lançamento previsto para Março de 2012, o filme O Renascimento do Parto, de Érica de Paula e Eduardo Chauvet, tem a participação de  mães, médicos e especialistas, de diferentes áreas, que expõem suas opiniões sobre  o parto natural e o número alto de cesáreas no Brasil. O cientista Michel Odent e o ator Márcio Garcia também participam do documentário.

O trailer do filme pode ser visto aqui:

O Parto II

Ola,

Hoje resolvi colocar umas animações que eu acho super interessantes sobre o parto.

Acredito que ajuda muito pra desmitificar alguns medos saber como os processos ocorrem.

Sempre que possível colocarei alguns vídeos de partos.

Parto Vaginal

Cesárea

Parto Natural (ou Ecológico)

Por que é diferente do Parto Normal?

No Brasil, parto normal é diferente de parto natural. Apesar do que a OMS recomenda, os partos feitos aqui são cheios de intervenções de rotina.

Acontece que o parto é um processo fisiológico, natural e acontece sem precisar de interferências, na maioria das vezes.

Por que ter um parto natural?

Bom, acredito que acima de tudo é uma escolha muito pessoal. Não há argumentos que possa colocar aqui para convencer alguém a ter algum tipo de parto, mesmo porque não acredito nisso.

Posso dizer por que eu (que ainda não sou mãe) escolhi, para mim, a princípio, um parto natural (e domiciliar):

Porque acredito que minha natureza, meu corpo, enquanto animal e mulher que sou, consegue dar conta de tudo que é natural…

Porque  condiz com as escolhas que faço em minha vida, optando por alimentos orgânicos e sempre que possível plantados por mim mesma,  na cidade escolhida por mim para morar para ter mais qualidade de vida.

Porque por escolha, primeiro de meus pais e depois minha, nunca tomei nenhuma vacina, nunca tomei antibiótico, não tomo remédio pra gripe e muito menos pra baixar a febre. Sempre que alguma dor está impossível de ser tolerada apelo para homeopatia, que aliás, me acompanha a vida inteira, para o chá, para os florais, para massagem e durmo quando estou com dor de cabeça muito forte.

Porque sempre me foi ensinado (por mãe e avó que tiveram partos normais, sem anestesias) que a dor do parto é algo forte, mas suportável e que passa assim que o bebê nasce.

Porém, não relutaria em fazer tudo diferente caso precisasse, tomaria antibiótico, remédios e toparia até uma cirurgia, caso fosse necessário. Acontece que nunca foi…

E então?

O que venho expor aqui, nesta postagem, é o direito (meu e de toda mulher) à escolha, o direito a não ser imposto ao nosso corpo práticas que não são necessárias ou não são requisitadas. O direito a informação.

E quais são essas práticas / intervenções?

A OMS recomenda  “o mínimo possível de intervenção que seja compatível com a segurança”.

Vale lembrar que essas intervenções às vezes são necessárias (em poucos casos) mas NÃO DEVERIAM ser rotineiras.

  • Enema ou lavagem intestinal: é incomoda, dolorida e não há evidências que comprovam que não faze-la aumenta o risco de infecções;
  • Tricotomia ou raspagem dos pelos pubianos: também não há evidências de que não faze-la aumenta o risco de infecções, além de ser incômodo quando os pelos começam a nascer;
  • Jejum ou restrição hídrica: não há necessidade desta indicação para partos com baixo risco e se o parto for demorado pode causar tonturas e fraqueza na mulher;
  • Administração de ocitocina ou o “sorinho”: hormônio usado para acelerar o trabalho de parto porém que torna as contrações mais dolorosas e difíceis…o que leva a um aumento nas chances da mulher precisar de anestesia e até cesárea;
  • Controle da dor por analgesia peridural ou agentes sistêmicos: a anestesia causa perda de sensibilidade, o que pode atrapalhar na qualidade da força no período de expulsão do bebê;
  • Restrição da movimentos durante o trabalho de parto ou imposição de uma posição para o parto: evidências mostram justamente o contrário, que a movimentação e a escolha da posição diminuem a dor a ajudam o bebê a encaixar melhor. Aliás, a posição mais incômoda para a maioria das mulheres é a posição deitada de costas, aumenta a dor porque comprime nervos e dificulta a descida do bebê porque está contra a ação da gravidade;
  • Episiotomia ou corte no períneo: há estudos que indicam que a probabilidade de lacerações graves gira em torno de 10%, não justificando o seu uso em todas as mulheres;
  • Ruptura artificial da bolsa: aumenta a chance de infecções.
Essas são as intervenções mais comuns mas existem outras ainda. Para mais informações recomendo a leitura do Manual : “Recomendações para o Parto Normal – OMS”.
Imagem: Cadeira de parto – Egito Antigo

O Parto

Mas afinal, o que é o parto?

Parto


O parto, por definição, é o processo de saída do feto do útero materno. Tamanha importância ele tem em nossa cultura que comemoramos “mais um ano de vida” baseados nessa data.

A título educacional os partos foram divididos em tipos:

O chamado parto normal é o parto vaginal. Ele pode ser domiciliar ou em alguma instituição (clínica, hospital, casa de parto).

No parto chamado natural ou, pra usar um termo mais “moderno” ecológico, esse processo ocorre de forma a ter o mínimo de intervenções possíveis, a não ser que sejam estritamente necessárias.

Já a cesárea é uma cirurgia muito útil para salvar vidas. É considerada de médio porte e feita, ou deveria ser, quando o bebê ou a mãe apresentam algum risco.

Vale lembrar que nenhum tipo de parto dispensa acompanhamento pré-natal e assistência adequada durante o parto. A OMS recomenda pelo menos 6 consultas de pré-natal.

Os profissionais habilitados para atender os partos são as(os) médicas(os) com especialidade em obstetrícia, a obstetriz, as(os) enfermeiras(os) obstétricas(os) e as parteiras tradicionais.

Alguns dados

A princípio, QUALQUER MULHER é capaz de parir naturalmente, salvo algumas complicações que podem ocorrer, mas que são raras. De acordo com dados da OMS, cerca de 70% das gestantes podem ser consideradas de baixo risco no início do trabalho de parto e a taxa aceitável para cesáreas gira em torno de 10 a 15%.

De acordo com um relatório da UNICEF, no Brasil, a taxa de cesárea é de 44%. Nos atendimentos do SUS a taxa é de 30-40%. Já nos particulares, chega a 90%!

Ora, se a cesárea, segundo a OMS, deveria ser feita apenas em casos de risco e se esses casos são 10 a 15% dos partos, obviamente estamos realizamos mais cesáreas do que seria necessário.

Acontece que no Brasil a cesárea não é só uma indicação quando há riscos para a mãe ou o bebê, ela também é considerada uma escolha para a mulher e para o médico.

Espera..escolha? Para mim escolhas são baseadas em informações. Será que as TODAS as mulheres que “escolhem” uma cesárea tem todas as informações necessárias para formar uma opinião?

Uma ajudinha…

Vantagens da cesárea (fonte: Revista Veja)

  • Tempo: a cesárea, em média, leva menos tempo do que um parto normal;
  • Dor: durante a cirurgia, a gestante recebe anestesia;
  • Escolha da data e do médico: a mulher, ou o médico, ou os dois, escolhem a melhor data;
  • Preserva o aparelho genital: auto-explicativo, não?

Desvantagens da cesárea

  • Risco: o risco de morte da mãe é 16 vezes maior, aumento da mortalidade neonatal;
  • Nascimento prematuro: com a cesárea marcada o bebê nasce antes de estar pronto para tal;
  • Cirurgia: a mulher deixa de ser parturiente e passa a ser paciente de uma cirurgia;
  • Recuperação: a mulher demora mais tempo para se recuperar (cerca de 6 a 8 semanas);
  • Dor: durante a recuperação a mulher sente dor;
  • Cicatriz: a cirurgia deixa uma cicatriz;
  • Pontos: a mulher precisa retirar os pontos externos retornando ao serviço de saúde;
  • Vinculo: interfere na qualidade do vínculo da mãe com o bebê logo após nascimento.

Vantagens do parto normal

  • Recuperação: rápida, de 4 a 5 dias;
  • Dor: sem dor pós-parto;
  • Participação: a mulher participa ativamente do parto;
  • Vínculo: permite uma interação mãe-bebê logo após o nascimento;
  • Bebê: nasce quando está pronto, participa ativamente do parto e recebe os estímulos fisiológicos do processo do nascimento;
  • Risco: oferece menos riscos e é mais seguro para a mãe e para o bebê.

Desvantagens do parto normal

  • Raro: laceração do períneo e danos a pelve;
  • Dor: dor causada pelas contrações e pelo nascimento;
  • Controle: não saber quando o bebê vai nascer;

Esses dados foram retirados de pesquisas que fiz na internet. Se você sabe de alguma outra vantagem ou desvantagem, me escreva que eu acrescento…

Eu, particularmente, quando observo tudo isso penso em duas coisas:

  1. Será que as vantagens e os riscos de uma cesárea fazem ela valer a pena, realmente?
  2. Fazem, SE e somente SE os riscos de vida ou os danos para a mãe e bebê forem maiores.

E você, o que pensa quando conhece tudo isso?

Há ainda uma outra discussão, mas que eu não vou argumentar sobre ela agora, sobre as indicações questionáveis de cesáreas. Onde nem a mãe nem o bebê correm riscos mas a cesárea é indicada… em outra postagem escreverei sobre isso.

Note que eu escrevi sobre cesárea x parto normal. Na próxima postagem escreverei sobre o parto natural.

Fontes:  

– Manual OMS – Assistência ao Parto Normal e Maternidade Segura

– UNICEF – Situação Mundial da Infancia 2011

http://www.partohumanizado.com.br

– Revista Veja edição 1698 – “A cesárea perde a fama de má”

Imagem: Mais uma da Amanda Greavette – “She is a new creation, the old has gone and the new has come”

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